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Assessoria Estudantil

Vladivostok e Kamchatka na Rússia, deixam de ser destinos místicos

Vladivostok e Kamchatka na Rússia, deixam de ser destinos místicos

18/06/2018 por @saulosenna

O nevoeiro comunista que cobriu a Rússia durante 70 anos começou a dissipar-se a partir de 1991, quando a União Soviética caiu. Tesouros inacessíveis emergiram e nomes como Kamchatka ou Vladivostok deixaram de ser destinos míticos ou territórios do tabuleiro de “War”. Isso não significa que tudo esteja à mão. Indo ao exemplo extremo, a península de Kamchatka oferece dificuldades logísticas à altura de suas atrações: vulcões congelados em furiosa erupção, lagos povoados por ursos famintos, trilhas inacessíveis, tempo inclemente e a ocasional base de submarinos nucleares.

Lindas paisagens em Kamchatka

Situada no distante oriente russo, sede de forças estratégicas da Frota do Pacífico russa, além de ser um campo de teste para mísseis balísticos intercontinentais, Kamchatka permaneceu fechada para quem não morava ou trabalhava lá até 1990.

Sua capital, a sonolenta Petropavlovsk-Kamchatski, é um monumento a esse isolamento. Horrendos blocos soviéticos são pontuados por intervenções de vidro espelhado de gosto duvidoso. Vladimir Lênin, o pai do comunismo soviético, está lá, firme e forte em forma de estátua na praça principal da cidade de 180 mil habitantes -quase 100 mil a menos do que no fim do império socialista, quando aqueles com condições para fugir dos invernos polares e da modorra econômica caíram fora. Muito mais pitoresca é outra estátua: um urso comendo salmão seguido pelo filhote, perto do aeroporto local, que serve para “photo-opportunities” dos
turistas com o portentoso vulcão ativo Koriakski (3.456 m) ao fundo. Os dizeres “Aqui começa a Rússia” dão boas-vindas, embora a impressão seja de que o maior país do planeta acaba ali, se não o mundo em si. São oito horas e meia de voo desde Moscou, o caminho mais rápido para quem sai da Europa, desembarcando num aeródromo com cara de galpão da Ceagesp. É o único jeito de chegar lá: não há estradas ou linhas marítimas regulares de passageiros. Se Petropavlovsk não inspira muito, com seus shoppings minguados e poucos bares, a coisa muda quando o “jet lag” baixa e a programação turística começa. São diferenciados em dois grupos os visitantes, ainda que a estrutura básica seja a mesma e não haja hotéis de luxo, wi-fi ou sinal de celular de forma
universal.

Lindas paisagens em Kamchatka

JANTAR DE URSO

A maioria dos 800 mil turistas que vai a Kamchatka todos os anos faz passeios de helicópteros (US$ 2.000 a hora para até cinco pessoas), operados pela única empresa do tipo na península. Faz sentido para quem não tem muito tempo e é a única forma de chegar ao Vale dos Gêisers, uma formação única, ou a algum dos lagos de pesca para os ursos marrons -a região concentra uma das maiores populações do bicho no mundo, e as consequentes histórias de visitantes que viram jantar dos animais. Uma fatia minoritária de turistas vai por terra, o que requer dias encarando
caminhos “off road” bizarros e acampando junto a bases de vulcões, enfrentando nevascas, o terremoto ou erupção ocasional e, bom, os ursos. É bem mais difícil, mas mais barato e emocionante, se você descontar a aventura que é voar em antigos helicópteros soviéticos. Para ambos os grupos, talvez o que mais impressione seja o ritmo peculiar da natureza. O tempo muda de forma abrupta sempre, e é possível que o visitante simplesmente fique preso sem poder voar de Petropavlovsk, perdendo seus muitos dólares.
Ou passe a noite congelando numa barraca ao lado de um vulcão em erupção, como Kliutchevskaia (4.750 m), ouça o morro rugir, mas não aviste nem um mísero riozinho de lava porque a neblina está muito forte. Essa sensação constante de desafio, contudo, é o que faz de Kamchatka um Shangri-lá do turismo de aventura. Vale cada copeque gasto.

Kamchatka 2018

VULCÕES

A península de Kamchatka é uma espécie de parque temático para quem tem interesse em natureza no seu estado mais bruto e, particularmente, em geologia. O lugar reúne nada menos que 160 vulcões, 29 deles ativos, liderando rankings de regiões com atividade geológica mais intensa do mundo. Quando os aviões deixam o aeroporto da capital e rumam de volta a Moscou ou Vladivostok, a oeste, as plumas de vários desses vulcões compõem uma visão quase onírica, em especial se aquela típica névoa que costuma cobrir a península tiver dado uma trégua. Só a capital tem três vulcões à sua volta, imortalizados no seu brasão. Neste momento, há erupção em curso que pode ser visitada. É a do
Kliutchevskaia, que fica a cerca de 500 quilômetros de estradas que se transmutam de boas a horrendas de Petropavlovsk. Sob a última qualificação, quaisquer 20 quilômetros tomam quatro horas.
Há uma cabana estatal de madeira, para grupos, mas sem vista para o vulcão. Vale mais acampar no limite seguro, a quatro ou cinco quilômetros do gigante: trata-se do maior vulcão ativo da Eurásia, com 4.750 metros. Uma vez instalado, não há muito o que fazer além de caminhar em trilhas por grandes campos de lava e florestas, e meramente observar o vulcão. Durante o dia, é impressionante, mas à noite o espetáculo fica completo: os rios de lava e as explosões ficam evidentes, com vermelhos ganhando o céu. O chão treme ocasionalmente, o que não facilita o sono, mas o sacrifício é plenamente recompensado. Para chegar lá, a melhor base é a vila de Kozirevsk, onde é possível alugar
quartos rudimentares e tomar cerveja em garrafas PET de 2,3 litros por 250 rublos (R$ 15). Além do Kliutchevskaia, de lá saem expedições para o Tolbatchik, um vulcão duplo cuja erupção de 2012 alterou parte da geografia da região. Ainda há campos de lava endurecida com aberturas na rocha na qual turistas assam salsichas e se queimam inadvertidamente com o bafo quente que ainda sobe das camadas inferiores. Escalar os 3.000 metros da parte “fácil” do vulcão Tolbatchik, sempre coberto de neve, requer algum preparo e boas oito horas de caminhada, mas não equipamentos especiais. Aqui e ali, fumarolas, lama vulcânica e toda sorte de manifestação geológica: há vales cinzentos cobertos por limo verde-limão, montanhas ferrosas vermelhas, pedras multicoloridas, florestas petrificadas, geleiras ocultas. Antes de ir, é vital checar o tempo. Primavera e outono do hemisfério Norte são as melhores pedidas. O inverno é duro e o verão traz consigo um companheiro para os ursos no quesito risco de ser devorado: pernilongos gigantes.

Falando nos grandes mamíferos, volta e meia é possível encontrar trilhas de pegadas ou fezes dos animais.

ANSIOLÍTICO

O sinalizador que os guias fornecem para acender em caso de ataque é mais um ansiolítico, já que se a espécie marrom local resolver te comer, irá fazê-lo: ele corre a 50 km/h, e nem que você fosse o velocista Usain Bolt (menos de 40 km/h) com fôlego de maratonista escaparia. Incidentes do tipo são raros, contudo, não mais que um por ano numa população de talvez 15 mil bichos -há um para cada 20 habitantes, uma das maiores densidades do planeta. Eles gostam de se reunir para pescar o delicioso salmão vermelho local em lagos como o Dvukhiurtotchnoie, acessível apenas por helicóptero.

GASTRONOMIA

A culinária certamente não está no primeiro lugar entre os motivos para visitar Kamchatka, mas um pouco de exploração pode render prazeres inesperados. Afinal de contas, a península é cercada e cruzada por águas geladas. Ou seja, garantia de crustáceos interessantes e variedades de peixes ricos em gorduras para se proteger do frio. A estrela local é o Paralithodes camtschaticus, uma versão avantajada do caranguejo gigante que chega às mesas brasileiras na sua variedade chilena, o “centolla”. No único restaurante local que se vende como gourmet, o San Marino
(avenida Karl Marx, 29/1), é possível degustar as patas do bicho como ponto focal de pratos variados de frutos do mar. O preço é alto para padrões da região, mas nada que assuste quem topou
chegar até lá: um prato do caranguejo com creme sai por R$ 75.
Como a lei brasileira mudou e é possível entrar com até cinco quilos de alimentos vindos do exterior, vale o investimento em algumas latas do caranguejo -que, por R$ 60 por 250 gramas, é quase a metade do que se gasta em Moscou com o produto.
O cuidado básico é que geralmente as latas têm de estar resfriadas, então tenha certeza de migrá-las por frigobares até a volta ao Brasil. Você não vai querer descobrir outro bicho de Kamchatka proliferando no fundo delas, em especial depois de começar a comer a iguaria. Outro destaque na culinária da península é o salmão vermelho que abunda nos rios gelados de Kamchatka. Como os ursos sabem, eles são melhores crus, e há algumas opções japonesas aceitáveis na capital, como o Yamato (shopping Planeta, na rua Lukashevskogo, 5). Fora de Petropavlovsk, cru, só se você tiver sua faca de sushiman à mão, ou então as variedades fritas e assadas por valores abaixo de R$ 10 são a pedida. E em toda a península há uso indiscriminado de saborosas e untuosas ovas do
peixe, em especial como complemento ao pão com manteiga no café da manhã.

Kamchatka 2018

PAKA PAKA

Saulo Senna

Brasileiro de Minas Gerais, 32 anos, vive em Vladivostok na Rússia há 3 anos, ex-estudante da Far Eastern Federal University (FEFU). Vindo de família de empresários, é CEO da Fiodor Assessoria Estudantil.